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Gosto dos carros europeus mas aquilo que vem da China está a preocupar-me

Eu gosto dos carros europeus, mas basta olhar para aquilo que está a ser feito na China para perceber que existe um problema. Os carros chineses já não são apenas mais baratos e a Europa parece não estar preparada para o que aí vem.

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Imagem gerada por IA | ChatGPT

Há alguns anos, era fácil olhar para um carro chinês e não o levar muito a sério. Hoje, basta ver aquilo que marcas como a Xiaomi, a BYD ou as empresas ligadas à Huawei estão a apresentar para perceber que tudo mudou.

Vejo carros com bancos que rodam, interiores que se transformam numa sala, projetores, frigoríficos e níveis de conforto que, na Europa, continuam normalmente reservados aos modelos mais caros. E a pergunta surge imediatamente: como é que BMW, Mercedes, Volkswagen as restantes marcas europeias vão competir com isto?

Não digo isto por ter deixado de gostar dos carros europeus. Muito pelo contrário. Continuo a preferir a personalidade de um BMW, o conforto de um Mercedes ou a forma como algumas marcas europeias conseguem fazer um carro transmitir emoções.

Mas gostar dessas marcas não significa ignorar aquilo que está a acontecer. A China deixou de ser o país que apenas copiava os carros europeus. Em algumas áreas, já é a Europa que parece estar a tentar perceber como pode acompanhar.

A China já não está apenas a copiar

Um dos carros que mais me fez pensar nisto foi o Xiaomi SkyNomad N90.

Os bancos dianteiros podem rodar 180 graus, a consola central transforma-se numa mesa e o interior pode ser organizado como uma pequena sala. Dependendo da versão, ainda podes ter um grande ecrã, frigorífico e bancos preparados para descansar durante uma viagem.

Basicamente, a Xiaomi olhou para o interior de um carro e pensou: porque é que isto não pode ser também uma sala, um escritório ou um espaço para estar com a família?

Depois temos o AITO M9. Não é propriamente um “carro da Huawei”, porque é produzido pela Seres, mas utiliza muita tecnologia da empresa chinesa. Pode ter bancos com massagens, vários ecrãs e até faróis capazes de projetar uma imagem com 100 polegadas.

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AITO M9 | Fonte: AITO

É claro que nem toda a gente precisa de ver um filme projetado pelo carro. Algumas destas funcionalidades podem até parecer um exagero. Mas a questão não é essa.

O que realmente importa é que as marcas chinesas estão a experimentar coisas diferentes. Estão a pensar na forma como utilizamos o carro quando não estamos a conduzir. Na Europa, muitas destas ideias continuam reservadas a automóveis extremamente caros.

Um BMW Série 7 também pode ter um enorme ecrã para os passageiros traseiros. O problema é o preço do carro e a quantidade de extras que normalmente tens de acrescentar. Na China, começa a existir a sensação de que este nível de tecnologia pode chegar a carros mais acessíveis.

A BYD é outro exemplo. Pode não transformar todos os seus modelos numa sala de cinema, mas consegue juntar espaço, tecnologia e equipamento por valores difíceis de ignorar. No ensaio do BYD Sealion 7, ficou claro que a marca já consegue criar um carro confortável, espaçoso e capaz de dar bastante trabalho à concorrência.

É aqui que a Europa tem um problema

O perigo dos carros chineses não está apenas no preço. Está na quantidade de coisas que conseguem oferecer por esse preço.

Marcas como a BYD desenvolvem as suas próprias baterias, motores e grande parte do software. Isso permite controlar melhor os custos e toda a experiência dentro do carro. É também uma das razões que ajuda a explicar porque é que os carros chineses estão a vender tanto.

Segundo a Agência Internacional de Energia, produzir baterias na Europa e nos Estados Unidos ainda pode custar até 50% mais do que na China.

E estes automóveis já não estão apenas a circular do outro lado do mundo. Em 2025, mais de um milhão de carros fabricados na China entraram na União Europeia. De acordo com a ACEA, representaram 7% das vendas totais e 20% do mercado europeu de elétricos.

Até a Volvo, uma das marcas em que pensamos quando falamos de segurança europeia, pertence ao grupo chinês Geely. A linha que separa a indústria europeia da chinesa já não é tão clara como parece.

Não estou a dizer que as marcas europeias vão desaparecer. A Europa continua a ter vantagens importantes na qualidade de construção, na segurança, na condução, na assistência e no valor de revenda.

Também não podemos olhar para o preço de um carro na China, converter diretamente para euros e assumir que será esse o valor em Portugal. Existem custos de transporte, impostos, homologação e taxas aplicadas pela União Europeia. Além disso, ainda existem dúvidas importantes sobre a assistência, a disponibilidade de peças e o valor de alguns destes carros no mercado de usados.

Mesmo com tudo isso, continuo a olhar para alguns modelos chineses e a pensar que a Europa ainda não tem uma resposta clara. Se dois carros custarem praticamente o mesmo, mas um oferecer mais espaço, mais conforto e muito mais tecnologia, quantas pessoas vão continuar a escolher apenas o símbolo que está no capô?

A Xiaomi já confirmou a chegada dos seus carros à Europa. A BYD continua a crescer e outras marcas chinesas estão a entrar no mercado português. Eu quero que as marcas europeias respondam. Quero continuar a ver marcas como BMW, Mercedes, Volkswagen e os restantes fabricantes a criar carros interessantes. Mas, honestamente, não sei como vão conseguir acompanhar este ritmo.

Os carros chineses já não estão a tentar alcançar a Europa. Em alguns aspetos, é a Europa que vai ter de correr para não ficar para trás.

Miguel Vieira
Miguel Vieira
Miguel Vieira é colaborador no 4gnews com formação em Programação e Multimédia. Cobre tecnologia, gaming e mobilidade elétrica, com presença em eventos como a Web Summit, Lisboa Games Week, ECarShow e SAHE.