Há alguns anos, uma pequena pancada no para-choques podia significar pouco mais do que pintura, chapa ou a substituição de uma peça. Hoje, em muitos carros, a história já não é assim tão simples.
Isto acontece porque vários componentes exteriores deixaram de ter apenas uma função estética. Atrás de um para-choques ou de uma grelha podem estar escondidos radares, sensores de estacionamento e outros equipamentos utilizados pelos sistemas de assistência à condução.
Esses sistemas, normalmente conhecidos como ADAS (Advanced Driver Assistance Systems, ou Sistemas Avançados de Assistência ao Condutor), incluem tecnologias como a travagem automática de emergência, o cruise control adaptativo, o alerta de saída da faixa de rodagem ou a deteção do ângulo morto.
Uma pequena batida pode mexer em muito mais do que o para-choques
O problema é que estes sensores precisam de estar posicionados com bastante precisão.
A American Automobile Association explica que até uma colisão ligeira pode ser suficiente para retirar um sensor do alinhamento correto. Mesmo que aparentemente não esteja partido, pode ser necessário verificar o sistema e voltar a calibrá-lo. E é precisamente aqui que a conta começa a aumentar.
Depois de substituir ou reparar determinadas peças, a oficina pode ter de fazer um diagnóstico eletrónico e uma calibração dos sensores. Dependendo do automóvel, este procedimento pode exigir equipamento específico, espaço próprio na oficina ou até um teste em estrada.
Ou seja, já não estás apenas a pagar pela peça e pela mão de obra necessária para a montar.
Até mudar o para-brisas pode ficar mais caro
O mesmo acontece com algo tão comum como substituir um para-brisas.
Muitos carros modernos têm uma câmara instalada junto ao espelho retrovisor no interior. Esta pode ser utilizada para identificar as faixas de rodagem, veículos, peões ou sinais de trânsito.
Quando o vidro é substituído, a posição dessa câmara pode ser afetada e o fabricante pode exigir uma nova calibração.
O Insurance Institute for Highway Safety (IIHS) refere precisamente que reparações relacionadas com o para-brisas ou danos provocados por acidentes podem obrigar a recalibrar câmaras e sensores.
Não acontece necessariamente em todos os modelos, mas é cada vez mais comum nos automóveis equipados com sistemas avançados de assistência à condução.
E não é apenas o para-brisas. Segundo a AAA, uma calibração também pode ser necessária depois de trabalhos na suspensão, alinhamento das rodas ou sempre que determinados sensores são removidos e novamente instalados.
Espelhos, faróis e para-choques também estão mais complexos
Há ainda outro fator importante: as próprias peças têm cada vez mais tecnologia incorporada.
Um espelho retrovisor pode incluir câmaras, sensores de ângulo morto, desembaciamento, iluminação e motores elétricos. Os faróis podem ter sistemas LED matriciais ou adaptativos e um para-choques pode esconder vários sensores.
Estes componentes são também mais sensíveis ao que acontece no exterior. Por exemplo, até a acumulação de pólen e poeiras pode afetar as câmaras e os sensores, já que estes sistemas dependem de uma visão desimpedida para funcionar corretamente.
Por isso, uma peça que num carro mais antigo era relativamente simples de substituir pode hoje obrigar a trocar componentes eletrónicos adicionais e a configurar novamente alguns sistemas.
É também por esta razão que duas batidas visualmente semelhantes podem resultar em contas completamente diferentes dependendo do modelo do automóvel.
A tecnologia não é o problema, mas tem um preço
Tudo isto não significa que os carros modernos sejam piores.
Pelo contrário, muitos destes equipamentos foram introduzidos precisamente para evitar acidentes ou reduzir as suas consequências. O IIHS salienta que os sistemas de prevenção de colisões têm benefícios comprovados para a segurança. O outro lado da medalha é a complexidade.
Quanto mais câmaras, radares, sensores e módulos eletrónicos um automóvel tiver, maior pode ser o trabalho necessário para garantir que tudo continua a funcionar corretamente depois de uma reparação.
Por isso, da próxima vez que olhares para uma pequena batida e pensares que é "só um para-choques", convém não tirar conclusões demasiado depressa.
