Num dia de verão com mais de 30 ºC, entrar no carro e ligar imediatamente o ar-condicionado é quase automático. Num automóvel a combustão raramente pensamos no que isso representa, mas num elétrico é diferente: basta olhar para a autonomia estimada para começar a surgir a dúvida.
A explicação é simples. Num carro elétrico, não existe um motor de combustão a trabalhar para movimentar o compressor. O sistema de climatização utiliza energia da própria bateria de tração, a mesma que alimenta o motor elétrico.
Ou seja, ligar o ar-condicionado tem impacto na autonomia de um carro elétrico, mas a perda pode ser bem menor do que imaginas.
Quanto pode o ar-condicionado tirar à autonomia?
Não existe uma percentagem que se aplique a todos os carros. A temperatura exterior, a temperatura escolhida no habitáculo, o tamanho do interior, a exposição ao sol, a duração da viagem e até a velocidade influenciam o resultado.
Um dos números mais interessantes vem de um estudo da AAA. Nos testes realizados a 35 ºC e com o ar-condicionado ativado, os elétricos apresentaram, em média, uma redução de 17% na autonomia quando comparados com a situação de referência, realizada a aproximadamente 24 ºC.
Importa fazer uma distinção: isto não significa que ligar o ar-condicionado retire sozinho 17% da bateria. O valor inclui o efeito combinado das temperaturas elevadas e da utilização da climatização.
Para termos uma ideia da escala, num elétrico capaz de percorrer 500 km, uma quebra de 17% corresponderia a cerca de 85 km, deixando aproximadamente 415 km. É apenas uma extrapolação do resultado do estudo, e não significa que todos os elétricos com 500 km de autonomia vão perder esses 85 km.
E o consumo também não é constante. Quando entras num automóvel que esteve várias horas ao sol, o sistema tem de trabalhar com maior intensidade para baixar rapidamente a temperatura. Depois de atingir a temperatura pretendida, a energia necessária para a manter tende a diminuir.
É também por isso que alguns fabricantes procuram tornar a climatização cada vez mais eficiente, especialmente porque qualquer redução no consumo energético pode traduzir-se em alguns quilómetros adicionais.
Nos carros a combustão o ar-condicionado também tem um preço
Aqui aparece a parte que facilmente passa despercebida. Um automóvel a combustão também precisa de energia para manter o habitáculo fresco.
A diferença está na forma como sentimos esse consumo. Em vez de vermos a percentagem da bateria ou a autonomia a cair de forma tão evidente, o esforço adicional traduz-se sobretudo num aumento do consumo de combustível.
Segundo o FuelEconomy.gov, em condições de calor intenso a utilização do ar-condicionado pode reduzir a economia de combustível de um automóvel convencional em mais de 25%, especialmente em trajetos curtos.
Ou seja, a ideia de que apenas os elétricos são muito penalizados pelo ar-condicionado não corresponde à realidade. Os dois gastam mais energia para manter o habitáculo fresco. Nos elétricos, porém, o efeito torna-se psicologicamente mais evidente porque o condutor vê a estimativa de autonomia mudar no ecrã.
É precisamente o calor que também explica porque os consumos dos automóveis podem mudar bastante durante o verão.
Há ainda uma diferença importante quando chega o inverno. Um motor a combustão produz uma grande quantidade de calor que pode ser aproveitada para aquecer o habitáculo. Num elétrico essa fonte de calor não existe e é necessário gastar eletricidade. É por isso que aquecer um elétrico em temperaturas muito baixas pode ter um impacto bastante superior ao de arrefecer o habitáculo no verão. Os modelos equipados com bomba de calor conseguem reduzir parte desta penalização.
No final, podes ligar o ar-condicionado do teu elétrico sem entrar em pânico. Vais perder alguma autonomia, especialmente num dia muito quente e numa viagem curta, mas desligá-lo para tentar poupar bateria nem sempre traz a vantagem enorme que se imagina.
Para reduzir o impacto, estacionar à sombra, deixar sair o ar quente antes de arrancar e, quando possível, pré-climatizar o carro enquanto ainda está ligado ao carregador são algumas das medidas mais eficazes. O próprio Departamento de Energia recomenda esta última estratégia para evitar que toda a energia necessária para arrefecer inicialmente o habitáculo saia da bateria durante a viagem.
