Lembro-me muito bem do tempo em que a tecnologia existia para nos servir; tudo o que era novo era recebido com uma curiosidade quase de criança. Onde não existia espaço mental para "pensar na ganância abusadora das marcas".
Comprava-se um telemóvel ou outro gadget qualquer e ele cumpria a sua função. Depois ficava num canto até ser preciso outra vez e a vida seguia.
Hoje, a tecnologia comporta-se como um namorado inseguro e carente que precisa de validação a cada cinco minutos.
Entrámos oficialmente na era do cansaço tecnológico. E a culpa não é apenas dos ecrãs — é da ganância desmedida de um ecossistema que parece ter medo de ser esquecido. Nada disto é novo. Esta tendência já se nota em todo o alfabeto de gerações.
O teu ex é tóxico e tem 6,7 polegadas
As marcas do mundo da tecnologia estão a agir como influencers em desespero: publicam dez stories por hora só para garantir que o algoritmo não as atira para a "Sibéria social".
Certamente não serei o único a reparar que, a cada ano, nos novos modelos de telemóvel e em outros produtos, notam-se menos diferenças entre si. Sem falar de software com as suas notificações (passivo-) agressivas e truques de design que foram especialmente pensados para captar até ao último segundo da nossa atenção.
Como se isso não bastasse, agora cobram-nos renda pelo hardware que já comprámos.
Pagar 1.500€ ou 2.000€ por um telemóvel topo de gama já não é suficiente. Agora é preciso a subscrição Pro, o plano Ultra, o armazenamento na nuvem e mais um plano VIP para desbloquear a funcionalidade que devia vir de série (não estou a olhar para ti, Apple).
A ganância das marcas tornou a experiência do utilizador de tal forma num pesadelo de microtransações, anúncios no sistema e bloatware patrocinado, que mais vale vir com logótipos impressos na carcaça. É cansativo. É ridículo. E parece que o mundo está a entrar num ponto de saturação.
O regresso ao simples: Dumbphones e Detox Digital
Quando o excesso se torna a norma, a simplicidade passa a ser um luxo. É exatamente por isto que a tendência de voltar atrás está a ganhar uma força imparável:
- O boom dos dumbphones: Telemóveis "burros" que apenas fazem chamadas e enviam SMS estão a conquistar uma geração (especialmente a Gen Z) que simplesmente se cansou de ser um produto.
- Marcas com consciência (ou bom marketing): A Nothing percebeu a jogada antes das outras. O seu ecossistema e o Nothing OS apostam num detox digital através do minimalismo. O Glyph na traseira do ecrã permite saber o que se passa sem ter de ligar o ecrã e cair na espiral do TikTok.
- Privacidade alheia: A mesma Nothing — à semelhança dos smart glasses — colocou um LED traseiro que avisa quem está à tua volta quando a câmara está a gravar. Uma funcionalidade simples que devolve a transparência a um mundo obcecado por vigiar.
Até o saudosismo das redes sociais está a bater à porta. Quando surgem notícias de que o MySpace está a preparar o seu regresso à espera do momento certo, o sinal parece-me claro: as pessoas não querem mais algoritmos que provocam ansiedade; querem a internet de 2006, onde a tecnologia era um ponto de encontro e não uma fonte de falsa dopamina.
Uma ordem de restrição
A tecnologia não precisa de reinventar a roda todas as semanas. Não precisa de nos mandar 40 notificações por dia. Não precisa de nos cobrar uma subscrição para usar o ar condicionado do carro ou o zoom da câmara do telemóvel — perdoem-me o drama.
A sociedade começou a impor limites. As marcas continuam a comportar-se de forma carente, a exigir todo o nosso dinheiro e 100% da nossa atenção... Embora não ache que este vá ser o fim dos smartphones (estaria apenas iludido se assim pensasse), vão, no entanto, acabar por ser trocados por um telemóvel de concha de 30 euros, com uma câmara integrada vintage (para o charme) e um passeio ao ar livre.
Querida indústria tecnológica: dá-nos espaço, ou vais ser ghosted.
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