A diferença entre salário ilíquido e líquido está, sobretudo, nos descontos efetuados para o Estado, a título de IRS e Segurança Social. No final do mês, a remuneração que se recebe já é líquida de impostos e outros descontos a que possa estar sujeito.

Ordenado líquido 

Salário líquido é o montante que efetivamente se recebe, no final do mês, já deduzido de todos os impostos e todos os descontos (sindicato, seguro de saúde associado ao acordo coletivo de trabalho, entre outros).

Consideremos apenas os impostos. Os impostos a deduzir à remuneração bruta são os seguintes:

  • a retenção na fonte de IRS: desconto mensal a título de adiantamento ao Estado por conta do IRS que paga no ano seguinte. O desconto é efetuado, aplicando taxas a escalões de remuneração bruta mensal, constantes das tabelas de retenção na fonte de IRS.
  • a contribuição para a Segurança Social: salvo alguns regimes especiais, a contribuição para a Segurança Social é de 11%, sendo abatida à remuneração bruta mensal. Este montante destina-se a financiar as pensões de reforma das pessoas que já não estão no ativo.

É a entidade patronal a responsável por reter o IRS e entregá-lo ao Estado em seu nome. É também o empregador que entrega a sua contribuição para a Segurança Social. 

Ordenado ilíquido

O salário ilíquido ou bruto refere-se ao montante de remuneração antes de impostos e outros eventuais descontos. Na negociação de um emprego, é de remuneração bruta que se fala.

Existe um "montante base" de salário e depois podem existir outros "complementos ou subsídios", entre os quais:

  • subsídio de almoço;
  • complementos de remuneração;
  • diuturnidades;
  • subsídio de isenção de horário;
  • subsídio de transporte.

Salário, vencimento, remuneração ou ordenado são as várias expressões utilizadas. Depois, podemos falar de bruto ou ilíquido, é a mesma coisa. 

Variações na remuneração ilíquida 

O seu salário bruto ou ilíquido mensal é estável. No entanto, terá sempre algumas oscilações se recebe subsídio de almoço, ou outros complementos ou prémios.

O subsídio de refeição é pago tendo em conta os dias úteis do mês, aqueles em que trabalha, e estes dias variam de mês para mês.

Os complementos ou prémios, se não são pagos todos os meses, ou se variam de mês para mês, farão também variar a sua remuneração bruta ou ilíquida.

Depois, como grande oscilação, temos os subsídios de férias e Natal, que quase duplicam, em termos brutos, a remuneração em dois meses do ano (ou em vários meses se considerarmos os parcelamentos proporcionais do subsídio de férias).

Alguns complementos ou subsídios não entram nos 13.º e 14.º meses, como o subsídio de refeição / almoço, por exemplo.

Como identificar a remuneração bruta (ilíquida) que está sujeita a imposto

As diuturnidades e a isenção de horário estão sujeitas, como a remuneração base, aos descontos para IRS e Segurança Social. Assim estarão outros complementos. No caso do subsídio de almoço não é tão linear.

O subsídio de almoço está sujeito a IRS e a Segurança Social mas, conforme o valor que recebe, pode ter uma parte isenta e outra sujeita a imposto:

  • subsídio de refeição em dinheiro só é tributado acima de 4,77 €;
  • subsídio de refeição em cartão ou vale-refeição, só é tributado acima de 7,63 €.

Estes são valores de subsídio de refeição em vigor à data do presente artigo.

Os exemplos hipotéticos seguintes consideram 20 dias úteis de trabalho no mês.

Exemplo 1:

  • remuneração base de 1.000 €
  • subsídio de almoço de 4,77 € / dia em dinheiro (isento)
  • subsídio de almoço mensal = 4,77 € x 20 = 95,40 €
  • remuneração bruta mensal é de 1.000 € + 95,40 € = 1.095,40 €
  • mas, a remuneração bruta mensal sujeita a imposto é de 1.000 € (sujeita a IRS e Segurança Social)

Exemplo 2: 

  • remuneração base de 1.000 €
  • diuturnidades de 30 €
  • subsídio de alimentação de 6 € / dia em dinheiro
  • subsídio de alimentação que não paga imposto: 4,77 €
  • subsídio de alimentação diário sujeito a imposto: 6 € - 4,77 € = 1,23 €
  • subsídio de almoço mensal sujeito a imposto: 1,23 € x 20 = 24,60 €
  • remuneração bruta mensal é de 1.000 € + 30 € + (6 € x 20) =1.150 €
  • mas, a remuneração bruta mensal sujeita a imposto é de 1.000 € + 30 € + 24,60 € = 1.054,60 € (sujeita a IRS e Segurança Social)

Como aplicar a taxa de retenção na fonte de IRS, constante das tabelas anuais

A retenção na fonte de IRS, ou os descontos para o IRS efetuados todos os meses, baseiam-se nas chamadas "taxas de retenção na fonte de IRS", constantes de tabelas com o mesmo nome.

A parte do salário retida funciona como adiantamento do IRS a liquidar no ano seguinte, ou um "pagamento por conta do imposto". As tabelas de retenção na fonte são aplicáveis apenas a trabalhadores por conta de outrem e a pensionistas.

As taxas de retenção na fonte a aplicar, variam em função

  • da remuneração mensal bruta;
  • do estado civil;
  • do número de titulares do agregado, no caso de casados;
  • do n.º de dependentes a cargo;
  • da residência (morada fiscal): Continente, Madeira ou Açores.

Para encontrar a taxa que lhe é aplicável é simples: escolha a tabela que se aplica ao seu caso, desça pela tabela até encontrar a linha da sua remuneração mensal (coluna da esquerda) e, depois, siga essa linha para a direita e pare no seu número de dependentes (0, 1, 2, 3, 4, 5 ou mais). Essa será a sua taxa de desconto.

Nos exemplos seguintes vamos usar as tabelas de retenção na fonte de IRS aplicáveis a partir de 1 de julho de 2022

Exemplo 1: 

  • trabalha por conta de outrem;
  • é casado e ambos são titulares;
  • tem um filho como dependente;
  • tem morada fiscal em Portugal continental.

Qual a tabela a aplicar? A Tabela III - Trabalho Dependente, Casado dois titulares.

Esta seria a tabela a aplicar aos rendimentos auferidos a partir de 1 de julho de 2022:

Se a remuneração mensal sujeita a imposto é de 1.000 €, com 1 dependente, a taxa a aplicar será de 8,6% (taxa da linha "Remuneração mensal até 1.015 euros"; coluna "1 dependente").

Exemplo 2: 

  • trabalha por conta de outrem;
  • é solteiro;
  • não tem dependentes;
  • tem morada fiscal em Portugal continental.

Esta seria a tabela a aplicar aos rendimentos auferidos a partir de 1 de julho de 2022:

Neste caso, se a remuneração for de 1.054,60 € (o valor do nosso exemplo 2 acima), e não tem dependentes, a taxa a aplicar será de 12,1% (taxa da linha "Remuneração até 1.075 euros"; coluna "0 dependentes").

Como aplicar a contribuição para a segurança social

A contribuição para a Segurança Social é de 11% para o trabalhador.

Bastará, por isso, aplicar à sua remuneração bruta, a taxa de 11%. O montante obtido é entregue pelo empregador à Segurança Social. Nos nossos dois exemplos teríamos:

  • 1.000 € x 11% = 110 €; 
  • 1054,60 € x 11% = 116,01 €

Como obter a remuneração líquida

Para obter o seu salário líquido, ou vencimento líquido, aquele que lhe é entregue todos os meses, bastará agora abater os descontos à sua remuneração líquida. Considere o seguinte exemplo completo:

A Maria é casada e ambos são titulares de IRS. Têm 3 filhos e vivem no Continente. A Maria tem a seguinte remuneração mensal:

  • salário de 2.000 €
  • subsídio de almoço de 6 € / dia (pago em dinheiro)
  • Diuturnidades: 100 €
  • isenção de horário: 200 €

O salário, a isenção de horário, as diuturnidades e uma parte do subsídio de almoço da Maria estão sujeitos a impostos. Como vimos antes, acima de 4,77 € / dia, o subsídio de almoço paga IRS.

Suponhamos um mês com 21 dias úteis. A Maria recebe 21 x 6 € = 126 € de subsídio de almoço (bruto). Mas só vai pagar IRS sobre a diferença entre 6 € e 4,77 €. Assim:

  • 21 x 4,77 € = 100,17 €: subsídio de almoço isento de IRS
  • 21 x (6 € - 4,77 €) = 25,83 €: subsídio de almoço sujeito a IRS

A remuneração (bruta) da Maria sujeita a IRS será, assim, de 2.000 € + 25,83 € + 100 € + 200 € = 2.325,83 €.

A tabela de retenção na fonte de IRS aplicável será a "Tabela III - Trabalho dependente, casado, dois titulares", referente ao Continente. A taxa a aplicar será a do escalão "remuneração até 2.389,00" com 3 dependentes: 18,5%.

Calculando os impostos:

  • 2.325,83 x 18,5% = 2.325,83 x 18,5/100 = 430,28 € (IRS)
  • 2.325,83 x 11% = 2.325,83 x 11/100 = 255,84 € (TSU)

E, finalmente, o salário líquido = salário bruto total - retenção de IRS - contribuição Segurança Social

Salário líquido = (2.000 € + 126 € + 100 € + 200 €) - 430,28 € - 255,84 € = 2.426,00 € - 686,12 € = 1.739,88 €

No final, a folha de remuneração da Maria naquele mês seria algo idêntico a esta tabela:

Os exemplos fornecidos estão de acordo com as tabelas de retenção na fonte de IRS publicadas no (Despacho 8564-A/2022, de 12 de julho, do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais). São as tabelas aplicáveis aos rendimentos auferidos a partir de 1 de julho de 2022. 

Consulte, e/ou descarregue para o seu computador as versões pdf e excel, das Tabelas de retenção na fonte de IRS 2022.

Pode consultar outros exemplos para o cálculo do salário líquido em Desconto mensal para o IRS em 2022: como calcular, ou apurá-lo diretamente na nossa Calculadora do salário líquido

Paula Vieira
Paula Vieira

Economista pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. É consultora em processos de fusão e aquisição de empresas, finanças e gestão.